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Governo vê navio: Madeira valiosa retida desde 2018 vai a leilão para entrar alguma coisa no cofre

Quase 17.500 metros cúbicos de madeira Mussivi, apreendidos desde 2018 por corte ilegal, entram agora no mercado por decisão do Governo, que tenta transformar um passivo florestal milionário numa oportunidade para a indústria nacional.

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O anúncio foi feito esta quarta-feira pelo Ministério da Agricultura e Florestas, que confirma a retenção da madeira em dois entrepostos: Maria Teresa, onde se concentram cerca de 16 mil metros cúbicos, e Caxito, com aproximadamente mil. Parte significativa do produto permanece ainda em parques portuários, armazéns e depósitos privados, acumulando encargos elevados junto dos serviços aduaneiros devido ao prolongado período de armazenamento.

Em 2024, um despacho ministerial determinou a suspensão temporária da exportação da espécie Guibourtia coleosperma, conhecida como Mussivi, como medida de protecção e uso sustentável. Apesar disso, o corte clandestino persistiu, expondo fragilidades graves na fiscalização florestal.

O director nacional de Florestas, Domingos Veloso, reconhece que a fiscalização constitui um dos “calcanhares de Aquiles” do sector. Angola, com mais de 1,2 milhões de quilómetros quadrados, dispõe de menos de 300 fiscais para cobrir todo o território, quando seriam necessários entre dois e três mil. Muitos carecem de meios de transporte e comunicação, e parte já atingiu a idade de reforma. No último concurso público ingressaram apenas 80 técnicos, número considerado insuficiente face às necessidades.

Perante este cenário, as autoridades lançam um apelo directo às indústrias de mobiliário, carpintarias, escolas de artes e ofícios e até aos serviços prisionais para adquirirem a madeira, organizada em lotes comerciais. A Mussivi, de elevada qualidade e crescimento lento — pode levar entre 80 e 100 anos a atingir a maturidade — destina-se tanto a mobiliário de alto padrão como a carteiras, portas, janelas e outros equipamentos escolares.

Enquanto decorrem ensaios de produção em viveiros no Bié, promovidos pelo Instituto de Segurança Social das Forças Armadas, e projectos no planalto central, o Governo tenta agora virar a página de anos de apreensões e contenções, numa corrida contra o tempo para evitar mais prejuízos e reforçar a protecção de uma das espécies mais valiosas do património florestal angolano.