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Os “Miúdos” da AGT e a balança torta da justiça angolana

Nos últimos dias voltaram a circular fotografias, notícias e especulações sobre o famoso Caso AGT. Não é para menos. Em Março, o Tribunal da Comarca de Luanda condenou a maioria dos arguidos a penas entre três e nove anos e meio de prisão. Em Setembro, o Tribunal da Relação de Luanda deu razão ao Ministério Público e agravou as penas dos principais arguidos para até 17 anos de prisão efectiva.

Registro autoral da fotografia

Há 4 horas
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Dezassete anos. Para percebermos o peso deste número, basta olhar para trás e ver como a mesma justiça tratou outros.

Uma acusação que encolheu, uma pena que cresceu

Os “miúdos”, quadros técnicos da AGT, muitos deles jovens, foram acusados de lesar o Estado em mais de 100 mil milhões de kwanzas. Foram pronunciados por esse valor. No fim do julgamento, porém, a condenação em primeira instância assentou em cerca de 13 mil milhões. São 87 mil milhões de diferença entre o que se acusou e o que se deu como provado.

Seria de esperar que uma acusação que perdeu quase nove décimos do seu valor terminasse em penas mais leves. Aconteceu precisamente o contrário. Estamos, pelas molduras penais aplicadas, perante o processo de natureza patrimonial mais severamente punido da história de Angola.

A pergunta impõe-se: quem são, afinal, estes “miúdos”? O que fizeram efectivamente? Quanto ficou o Estado, de facto, a perder?

A comparação que incomoda

Vejamos como a justiça angolana tratou alguns dos maiores gestores públicos e figuras do poder dos últimos anos:

  • Carlos São Vicente, que geriu durante 16 anos o negócio de seguros da indústria petrolífera, condenado a uma indemnização de 500 milhões de dólares: 9 anos de prisão.
  • Augusto Tomás, ex-ministro dos Transportes (caso CNC): 14 anos em primeira instância, reduzidos para 7 anos e 1 mês pelo plenário do Tribunal Supremo. Beneficiou de perdão e está em liberdade definitiva desde 2024.
  • Manuel Rabelais, ex-ministro da Comunicação Social e director do extinto GRECIMA, num desvio estimado em 98 milhões de euros: 14 anos e meio, reduzidos para 7.
  • José Filomeno dos Santos, ex-PCA do Fundo Soberano (caso dos 500 milhões de dólares): 5 anos, depois abrangido por indulto presidencial.
  • Valter Filipe, ex-governador do BNA, no mesmo processo: 8 anos.
  • General Kopelipa, ex-ministro de Estado e chefe da Casa Militar do Presidente da República: absolvido de todos os crimes, com o tribunal a elogiar publicamente o seu “contributo relevante” à nação.
  • General Dino, ex-chefe das Telecomunicações da Presidência: 5 anos e 6 meses.
  • Ernesto Kiteculo, ex-vice-governador do Cuando Cubango e ex-governador da Lunda Sul: 5 anos e 1 mês.
  • Major Pedro Lussaty, num esquema que o tribunal estimou em cerca de 37 mil milhões de kwanzas: 14 anos, reduzidos para 12. O co-arguido Jacinto Hengombe: 11 anos.

Ministros, generais, governadores e o filho de um Presidente receberam penas entre a absolvição e os 9 anos. Os “miúdos” da AGT chegam aos 17. Há penas aplicadas neste processo que ultrapassam as de muitos crimes de homicídio e violação. A proporcionalidade, princípio basilar de qualquer Estado de Direito, onde ficou?

O “lesado” que desmentiu o tribunal

Há um pormenor neste processo que nenhum cidadão atento pode ignorar. O PCA da AGT à data dos factos, José Leiria, era o gestor máximo da instituição alegadamente lesada. Foi chamado a tribunal e, segundo o próprio testemunho, afirmou que o Estado não perdeu um único kwanza e que os montantes foram integralmente recuperados.

Ou seja, o lesado desmentiu o tribunal.

Pelas suas declarações, o Ministério Público chegou a pedir a abertura de um processo-crime contra ele. Meses depois, não só não foi constituído arguido como foi nomeado pelo Presidente da República, João Lourenço, Secretário de Estado para os Assuntos Tributários.

Ficam então duas hipóteses. Ou o lesado foi promovido apesar de ter, na versão do Ministério Público, faltado à verdade em tribunal, ou foi promovido pela excelência da sua gestão.

Se for a segunda, a pergunta é inevitável: se o treinador é premiado pelos resultados da equipa, porque é que os jogadores do onze inicial, os que fizeram o trabalho no terreno, estão presos há mais de 20 meses, alguns em excesso de prisão preventiva? O prémio do treinador é uma Secretaria de Estado; o dos jogadores é a cadeia?

Processo político ou combate selectivo?

Será este mais um processo político? Estarão estes jovens a ser punidos publicamente como grandes criminosos quando, em boa parte, se discutem falhas que poderiam ter sido tratadas com processos disciplinares internos da AGT? Será mais um capítulo de um combate à corrupção que pesa com mais força sobre quem tem menos poder?

O Dr. Sérgio Raimundo, em tribunal, fez a pergunta que muitos angolanos fazem em silêncio: será que querem culpabilizar estes miúdos por todas as desgraças do país?

Ou será que se pretende usá-los como cartaz de propaganda no combate à corrupção, para disfarçar a falta de resultados nos processos que envolvem os verdadeiros grandes nomes, como Isabel dos Santos e outros?

Um apelo

Parem de perseguir estes “miúdos”.

Senhor Presidente João Lourenço, o país precisa de reconciliação, não de bodes expiatórios. Uma amnistia, um gesto de perdão, faria de si o verdadeiro campeão do perdão do povo angolano. Esse sim seria o seu maior legado.

Fim às perseguições políticas em Angola.

TEXTO DE OPINIÃO

AUTOR ANÓNIMO