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África do Sul vai escavar cemitérios em Angola à procura de combatentes anti-apartheid

A África do Sul prepara-se para iniciar, já nos próximos meses, uma das mais delicadas operações de memória histórica da era pós-apartheid, com a recuperação e repatriamento dos restos mortais de antigos combatentes da luta de libertação sepultados em território angolano. As primeiras escavações deverão arrancar entre Setembro e Outubro, mediante autorização das autoridades angolanas, numa missão que poderá revelar novos locais de enterro e devolver identidade a dezenas de heróis desaparecidos.

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O Governo sul-africano identificou Angola como a principal prioridade do programa, por concentrar o maior número de cidadãos que perderam a vida no exílio durante a resistência ao regime do apartheid. As investigações preliminares já localizaram 89 potenciais sepulturas, mas as autoridades admitem que existam mais de 400 possíveis locais de enterramento espalhados por várias regiões do país. Entre os pontos identificados constam três cemitérios em Luanda, Malanje, Quela, Cacuso, o antigo campo do Caxito e oito sepulturas situadas à entrada do Pango. O processo enfrenta obstáculos significativos, desde minas terrestres e vegetação densa até à ausência de registos históricos e à deterioração dos restos mortais.

Durante a apresentação da fase angolana do programa, realizada no Freedom Park, em Pretória, o ministro do Desporto, Artes e Cultura da África do Sul, Gayton McKenzie, garantiu que nenhuma família suportará qualquer custo relacionado com as exumações, análises forenses ou repatriamentos. O governante assegurou ainda que nenhuma intervenção avançará sem o consentimento dos familiares e reconheceu que, apesar do recurso à análise de ADN e a tecnologia forense de última geração, alguns restos mortais poderão nunca ser encontrados ou identificados. Nesses casos, o Executivo compromete-se a promover um “repatriamento espiritual”, para permitir às famílias prestar homenagem aos seus entes queridos.

O programa, aprovado em Março deste ano, resulta do memorando assinado entre Angola e a África do Sul em Dezembro de 2024, no âmbito da iniciativa “Estradas para a Independência: Património da Libertação Africana”. Segundo o vice-ministro da Justiça, Andries Nel, a iniciativa responde às recomendações da Comissão da Verdade e Reconciliação, que defendeu a continuação das buscas por vítimas desaparecidas ou mortas por motivos políticos entre 1960 e 1994. Até ao momento, a equipa sul-africana já recuperou mais de 230 vítimas ligadas ao conflito político do apartheid e repatriou os restos mortais de 49 cidadãos a partir da Zâmbia e do Zimbabué, enquanto Angola volta agora a assumir um lugar central na preservação da memória da luta que conduziu ao fim de um dos regimes mais discriminatórios do século XX.